quarta-feira, 12 de maio de 2010

PANORÂMICA DA HERMENÊUTICA TEOLÓGICA EM GEFFRE

Por Ederson da Silva dos Reis

Considerações Iniciais:
Claude Geffré nasceu na França (Niort), em 1926. Teólogo herdeiro de uma grande tradição do século XX, francês, pertence à Ordem dos Pregadores (Dominicanos). Por mais de 20 anos foi professor de Teologia Dogmática em Le Saulchoir e em seguida, de Hermenêutica Teológica, Teologia Fundamental e Teologia das Religiões, no Institute Catholique de Paris. Em 1996 foi eleito diretor da École Biblique de Jerusalém e é, ainda, membro fundador e colaborador permanente da Revista Internacional de Teologia Concilium. Claude Geffré reside em Paris e é autor de alguns entre os mais importantes textos sobre os efeitos do pluralismo religioso na Igreja e no mundo de hoje.
Em Crer e interpretar, Geffré descreve, num sentido bem geral, uma teologia hermenêutica que transpõe os limites da simples hermenêutica designada como corrente teológica. Expõe, com propriedade, a necessidade premente de se compreender a hermenêutica num sentido mais forte e critico, não apenas sob a forma dogmática, mas também escriturística, para que assim se obtenha uma melhor compreensão dos textos sagrados e inclusive da tradição da Igreja.
No entanto, procura, sobretudo, designar uma dimensão interior da razão teológica, ou ainda fomentar um novo paradigma interpretativo, um novo modelo, isto é, uma nova maneira de fazer teologia.
Destarte, Geffré nos apresenta um real e possível estatuto hermenêutico, o que segundo ele se constitui numa virada hermenêutica da teologia.
1. A razão teológica como razão hermenêutica
A ciência é compreendida por Aristóteles como sendo uma ciência que procede a partir de princípios necessários ou de axiomas, axiomas que a razão percebe imediatamente.
Partindo dessa compreensão aristotélica da ciência é que Tomás de Aquino formula a chamada teologia ciência, que identifica as verdades fundamentais da mensagem cristã, a saber, os artigos de fé, com aquilo que Aristóteles chama de primeiros princípios.
Para Agostinho, essa tendência de analisar ou verificar cientificamente os artigos de fé é considerada uma teologia compreendida como inteligência da fé.
Para Claude Geffré, a teologia tende a ser compreendida não apenas como um discurso sobre Deus, mas como um discurso que reflete sobre a linguagem a respeito de Deus, isto é, um discurso sobre uma linguagem que fala humanamente de Deus. Logo, não há como existir um saber direto ou imediato da realidade fora da linguagem, e esta por sua vez constitui-se uma interpretação, que naturalmente se torna uma hermenêutica.
A teologia, em seu bojo, procede por hipóteses e por verificação dessas hipóteses, confrontando-se amiúde com os chamados textos fundadores, considerados clássicos do cristianismo, o que a faz adotar um estatuto cientifico para tal fim. Desta forma, a teologia ratifica os critérios de uma ciência hermenêutica, pois é certo que todo conhecimento cientifico é um conhecimento interpretativo, ou seja, que se submete a uma ciência interpretativa, a saber, a hermenêutica.
2. Experiência cristã e interpretação
A teologia tem se moldado nos últimos anos por um modelo que Geffré chama de dogmático ou dogmatista. Pois, o discurso teológico tem sido um reflexo da Igreja institucional, ou seja, o dogma é tomado como ponto de partida ou base para a feitura da teologia, e isso tem colocado em xeque não somente a interpretação como também a compreensibilidade dos textos cristãos.
Ante o exposto, se faz necessário adotar um modelo hermenêutico em teologia, o que significa tomar como principiador da compreensão um texto. Pois, segundo Geffré, quem diz hermenêutica não diz simplesmente a compreensão em geral, mas o tipo de compreensão que esta engajado na leitura dos textos, quer se trate da Escritura ou das releituras dessas Escrituras na tradição, uma vez que vivemos em determinada cultura. Dai a importância da tradição como agente de interpretação dos textos pretéritos.
Vale ressaltar que, para a interpretação dos textos cristãos é imprescindível discernir os elementos fundamentais da experiência cristã ou da tradição, separando-os das linguagens nas quais esta experiência fora traduzida. Isso só é possível através dos esquemas interpretativos que a própria tradição de linguagem, na qual o hermeneuta esta inserido, fornece a este para a apreensão da realidade textual, o possibilitando acima de tudo forjar novos conceitos.
3. Hermenêutica e ontologia
A teologia compreendida como hermenêutica não renuncia a dimensão ontológica dos enunciados teológicos, embora considere a ruptura com o pensamento metafísico, como sendo este um pensamento da representação. O objeto desta teologia não é uma série de exposições dogmáticas, mas é o conjunto dos textos compreendidos no âmbito hermenêutico, que é aberto pela revelação.
Assim sendo, esta compreensão há de se precaver das armadilhas da representação conceitual preparadas pelo pensamento metafísico, doravante adotando um caminho mais simples, porém perigoso, que é o da interpretação. Por conseguinte, a teologia hermenêutica reivindicará uma verdade da ordem da comprovação ou ainda da manifestação, ou seja, ela exigirá uma plenitude de verdade.
De acordo com Geffré, a manifestação da verdade é sempre manifestação do devir, e compete, ao sujeito interpretante, se resignar diante da imponderabilidade deste fato hermenêutico. A cada nova descoberta se instaura sempre uma nova releitura, que desembocará, outrossim, em uma nova necessidade cognitiva, “pois a verdade reveste-se de uma universalidade que é comunicada por meio da linguagem” (CHAMPLIN, 2006, p. 96).
Para Heidegger, a linguagem antes de ser o instrumento do pensamento e da comunicação entre os humanos, é um certo dizer do mundo, uma certa “ostentação” do mundo. Assim, a prática teológica ou o fazer teológico iguala-se com a escuta atenta do que nos é dito.
Uma teologia da Palavra de Deus, segundo Geffré, tem como pressuposto a função ontofônica da linguagem, isto é, sua manifestação de ser. Isto porque a linguagem já possui um alcance ostensivo quanto ao ser do mundo que ela pode ser retomada pelo teólogo para ser então a manifestação não simplesmente do ser do mundo, mas do próprio ser de Deus.
Portanto, a hermenêutica é o caminho de ligação que tornará a realidade desejada pela fé uma realidade inteligível, e a verdade que dela se desdobra uma possibilidade hermeneuticamente alcançável, ainda que de maneira progressiva e escatológica, pois simplesmente temos o sentido da distância entre a posse sempre relativa da verdade no plano humano e o fato de que esta verdade aponta para uma verdade inacessível que coincide com a própria realidade do mistério de Deus.
4. A boa situação hermenêutica
Uma das tarefas da hermenêutica é nos fornecer uma interpretação correta da mensagem cristã em sua originalidade, isto é, em seus primórdios. E isso apenas é possível quando se faz uso dos recursos da exegese, a saber, da critica histórica, critica textual e da critica literária, para que se tenha uma melhor compreensão do conteúdo desta mensagem.
Contudo, esta boa situação hermenêutica, compreendida por tradição versus cultura ou passado versus presente, deve se basear numa relação, numa correlação critica entre a experiência cristã da primeira comunidade cristã e nossa experiência histórica de hoje, ou seja, é fundamental que se faça uma análise seletiva dos textos que permitem uma interpretação a partir da própria linguagem do leitor, a partir dos próprios esquemas de pensamentos estabelecidos por este, realizando assim uma releitura da tradição, o que segundo Geffré seria uma hermenêutica de reapropriação ou ainda de atualização, trazendo tais textos da tradição ao alcance da compreensão hodierna.
Geffré, por exemplo, diz que a experiência de Jesus Cristo como salvação da parte de Deus não pode ser recebida a não ser com base numa certa experiência do que é Messias, do que é salvação, do que é a expectativa messiânica, do que é a verdade da relação religiosa do ser humano com Deus.
Não obstante, para se ter uma boa situação hermenêutica é imprescindível estabelecer um diálogo, uma conversação com o texto, estando o leitor submetido ao processo de perguntas e respostas. Segundo Geffré, é esta dialética do texto e do leitor que fornece progressivamente o horizonte justo que nos permite atingir a verdade cujo portador é o texto.
5. Uma nova abordagem da escritura
A proposta duma teologia compreendida como hermenêutica é suscitar no hermeneuta a aptidão por uma nova abordagem da Escritura, do texto, da tradição, da então chamada hermenêutica conciliar. Segundo o ideal proposto por Schleiermacher, tratar-se-ia de compreender melhor o texto do que o próprio autor o teria compreendido. Não é uma tarefa fácil, todavia é necessária para a compreensão.
Convém aqui, enunciar algumas regras suscetíveis a fim de ajudar-nos a encontrar a uma interpretação pertinente das fórmulas dogmáticas, as quais mantêm coerência com uma hermenêutica definida como um diálogo entre um texto e um leitor.
1) Para compreender o alcance de um enunciado dogmático é preciso forjar a situação hermenêutica correta que é determinada pelo jogo da pergunta e da resposta;
2) As definições conciliares devem ser lidas à luz de nossa leitura critica da Escritura;
3) As definições conciliares devem ser interpretadas à luz do aspecto de correlação critica entre a experiência cristã fundamental e nossas experiências humanas de hoje;
4) Em alguns casos, a reinterpretação de um enunciado dogmático pode levar a uma reformulação.
Na visão de Geffré, sempre se deve passar pela objetividade do texto, na medida em que ele escapa definitivamente a seu próprio autor e encerra potencialidades de que o próprio autor não tinha idéia. Isso o faz declarar, categoricamente, que toda leitura importante o transforma.
Sendo assim, o trabalho do interpretante é adentrar no mundo do texto, que abarca não somente as formas do discurso como também as variegadas percepções que o leitor tem do mesmo. Desta forma, compete a este chegar mais próximo possível do texto, bem como a sua interpretação, sobretudo à mensagem e sua aplicabilidade.
6. Hermenêutica do sentido e Hermenêutica da ação
A hermenêutica teológica não deve somente seguir pelos meandros da interpretação textual sem se esmerar na praticidade da verdade, que torna possível a transformação das ações e reações humanas. Noutras palavras, a teologia compreendida como hermenêutica não pode ser unicamente uma hermenêutica do sentido, enclausurada a meras hipóteses e esquemas interpretativos, que visam apenas interpretar o texto, escamoteando assim a sua mensagem, mas também deve ser uma hermenêutica de ação, que conduz a uma certa prática, ou seja, a um certo fazer, que via de regra esta relacionado com a ação/reação do interpretante logo após o trabalho de interpretação de determinado texto.
Podemos ver expressa a critica de Schleiermacher acerca da interpretação feita de modo mecânico e sem espírito ou ainda puramente baseada em experiências e meras observações, nos seguintes termos:
Assim é praticada a interpretação em nossas escolas e faculdades, e os comentários esclarecedores dos filólogos e teólogos – pois ambos têm o campo previamente cultivado -, contem um tesouro de observações e informações instrutivas, as quais provam suficientemente o quanto eles são verdadeiros artistas na interpretação, ao passo que seguramente ao lado deles, sobre o mesmo assunto, em parte nas passagens mais difíceis, emerge o mais selvagem arbítrio, em parte a mediocridade pedante insensivelmente omite ou totalmente deturpa o mais belo. Mas ao lado de todos esses tesouros, aquele que precisa exercer este trabalho sem se colocar no nível dos artistas indiscutíveis e, além disso, ao mesmo tempo deverá na interpretação mostrar o caminho a uma juventude ávida de saber e lhe dar as diretivas, este experimenta o desejo de uma instrução tal que, como metodologia propriamente dita, não somente que ela seja o fruto sempre alcançado dos trabalhos magistrais dos artistas nesse domínio, mas que ela exponha também sob uma forma adequada e científica toda a extensão e as razões de ser do processo. (SCHLEIERMACHER, 2009, p. 26)
Por fim, Geffré nos diz que a insistência da dimensão prática da teologia não nos leva a uma espécie de pragmatismo teológico, pois a teologia como hermenêutica guarda necessariamente uma dimensão especulativa ou argumentativa.
Considerações Finais
Claude Geffré é bem sucedido na sua tentativa de reformular o estatuto hermenêutico, a fim de suscitar em nós, sujeitos interpretantes, a busca pela verdade, pelo real sentido do texto, que se desencadeia somente após a compreensão e aplicação da tríade fé-experiência-linguagem.
A fé, neste estatuto hermenêutico, tem uma natureza compreensivo-interpretativa de desvelamento, e não de esvaziamento de sentido. A experiência diz respeito ao relacionamento vital entre autor-texto-intérprete. E a linguagem torna-se critério de demonstrabilidade interpretativa de uma realidade ainda não descoberta, cuja veracidade só pode ser ontologicamente concebida em termos da hermenêutica.
Portanto, compete ao sujeito interpretante se desvencilhar dos enunciados dogmáticos, no tocante à interpretação dos textos sagrados, para que possa compreender o sentido do texto, os pensamentos do autor, sua linguagem, os tornando compreensíveis na tradição.
Referências:
GEFFRÉ, Claude. Crer e interpretar: a virada hermenêutica da teologia. Petrópolis: Vozes, 2004.
CHAMPLIN, Russell Norman. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. São Paulo: Hagnos, 8ª Ed. Vol. 3, 2006.
SCHLEIERMACHER, Friedrich D.E. Hermenêutica – Arte e técnica da interpretação. Petrópolis: Vozes, 7ª Ed. 2009.

Um comentário:

Mara magno disse...

a paz de cristo Pr.

Tenho acompanhado suas postagems, e tem me ajudado a tornar mais compreensível,o que tenho estudado sobre teologia.

Deus te abençoe!
e te ajude, em tudo o que tens colocado em teu coração a realizar.